Visando obter mais conforto nas residências nordestinas, Armando Holanda Cavalcanti elaborou o livro Roteiro Para Construir no Nordeste. São inúmeras as soluções de conforto expostas neste livro, no que diz respeito à ventilação e iluminação naturais. Em geral, são soluções simples e eficientes que não tendem a comprometer a qualidade plástica das edificações.

Olinda é uma cidade muito quente, assim como as demais cidades do litoral nordestino. É fato. No entanto, apesar de muitos arquitetos seguirem as recomendações de Armando Holanda (uns com êxito, outros nem tanto), soluções populares surgem, na maioria das vezes, com o único intuito de resolver o problema térmico, acarretando num completo descompromisso com o bom senso arquitetônico. Apesar de reprovar tais atitudes, não posso negar que algumas são de uma criatividade surpreendente. Usar papel alumínio, como se usa em alimentos ao forno, ou ao freezer, em paredes voltadas para o poente, com o intuito de minimizar a temperatura do ambiente interno, é espantoso e bizarro.

Talvez, para pessoas com atitudes como esta, a arquitetura signifique apenas ter um teto sob o qual residir, independente de sua forma e característica. Esquecem que suas casas compõem um cenário coletivo. Mesmo para quem não tem boas condições financeiras, é possível responder às suas necessidades funcionais com boa arquitetura.

Entendo que o termo “boa arquitetura” tem significado amplo e discutível, mas não há como ser favorável a este tipo tão esdrúxulo de “solução”.

Mas como se não bastasse a baixa qualidade estética da residência inteira, ao dar um zoom out, vejo no topo, em lugar de destaque, supremo, o reservatório d’água de fibrocimento praticamente prestes a saltar do alto.

Os demais detalhes, sem comentários…


Geralmente, toda ação traz consigo uma intenção. Demolir um monumento histórico, ou um conjunto, é uma ação que, em geral, tem a intenção de implantar o “progresso”. Seja para a construção de uma avenida, ou para construção de um edifício completamente novo, “atual”, “moderno”. Muito embora esta intenção seja questionável.

Demolir um templo centenário para a construção de uma avenida é matéria conhecida de todos nós. Mas encobrir pinturas, também centenárias, de forros de igreja, não me parece ser uma ação que traga consigo alguma intenção progressista.

Foi o que aconteceu na Igreja do Largo de São Francisco, em São Paulo. Restauradores encontraram pinturas do século XIX, no forro, encobertas por uma camada de tinta cinza.

Restauração da cúpula da capela-mor da Igreja do Largo de São Francisco, na região central de São Paulo

Demolir uma igreja para dar lugar a uma avenida, está explicado, embora não justificado. Mas qual a explicação para esconder ricos painéis do forro de uma igreja? Seria também pra atingir o “progresso”? Que progresso? Sem tais painéis o templo seria considerado “moderno”? “atual”? esta atitude teria ocorrido por falta de recursos para restaurar a pintura antiga? Não tenho respostas. Não consigo imaginar as intenções.

Particularmente, considero certas intervenções um erro imperdoável.


Num vôo de pássaro pela internet, descobri um blog russo onde um post mostra uma coleção de figuras de 1910 da Biblioteca Nacional da França, ilustrando como se imaginava que seria o ano 2000. Obviamente, muitas destas gravuras ilustraram uma imaginação bastante fértil, mas outras profetizaram.

Neste meio, a figura do arquiteto surge como boa parte das pessoas atualmente deseja que ele seja.

Naquela época, 1910, já se previa a morte da arquitetura enquanto arte, enquanto filosofia. Já se previa a mecanização, a padronização e também a vulgarização da arquitetura. A figura do arquiteto surge como um mero operador de máquinas, da qual os edifícios praticamente brotam prontos do chão.

Acho que nós, arquitetos, perdemos as forças de vez.


Em 22 de outubro, às 1:55 (horário de Brasília), o sol iluminou o rosto da estátua do faraó Ramsés II no Templo do Sol, na cidade de Abu Simbel, no Sul do Egito.

O Templo do Sol foi construído de modo que os raios solares iluminassem o rosto da estátua duas vezes ao ano, durante 24 minutos: em 22 de outubro, para comemorar a ascensão de Ramsés II ao trono, e em 22 de fevereiro, por ocasião do seu aniversário. Este período demarcava a temporada agrícola para os antigos egípcios.

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Já que a maioria de nós, humanos, necessita de datas para celebrar motivos diversos, imagino o quão interessante seria habitar numa residência onde houvesse um lugar especialmente planejado para receber luz solar direta apenas duas vezes ao ano, durante 24 minutos, e que esta luz, naquele lugar específico, provocasse uma comoção numa dimensão tal que esta sensação em si prenunciasse um período de suma importância para seus habitantes.

Imagino também os arquitetos de hoje arrancando os cabelos diante de uma solicitação desta natureza.


O rosto da múmia de Tutancâmon foi revelado ao público hoje, neste domingo, dia 4, pela primeira vez na história.

Fico imaginando o que aconteceria se fossem encontrados os projetos das pirâmides e dos demais monumentos egípcios, com esboços explicativos, memorial descritivo, etc. Acredito que seria um dos tesouros mais valiosos produzidos pelo ser humano.

Mas, seríamos devorados por uma possível frustração face às exacerbadas expectativas e especulações sobre o Egito antigo?

Oscar Wilde estaria com a razão quando disse que “os segredos são sempre bem menores do que a sua revelação”?

Independente das conseqüências de um achado deste porte, acredito que seria fabuloso tentar compreender através de esquemas, de desenhos e memoriais descritivos, como os antigos egípcios de fato pensavam a arquitetura.




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